A comunidade de Sutil, localizada em Ponta Grossa, formou-se a partir da herança deixada por Maria Clara do Nascimento aos escravizados da Fazenda Santa Cruz, em 1854, conforme testamento:
“Declaro que possuo uma Fazenda na paragem denominada Santa Cruz, Districto da Freguesia da Palmeira […]. Deixo a minha escrava Fermina a quinta parte da metade dos Campos da Fazenda Santa Cruz […]. Deixo as outras quatro partes da metade dos ditos Campo de Santa Cruz e todas as terras de planta a todos os escravos libertos por mim e por meu falecido irmão Capitão Joaquim Gonçalves Guimarães”. (Escritura de Marciano Gonçalves Guimarães, registrada em 30/05/1856. Autos do processo de divisão da Fazenda Santa Cruz. Fórum de Palmeira. Folha 22 In. HARTUNG, p. 132)
As terras da fazenda formaram duas comunidades, Sutil e Santa Cruz, divididas pela presença de imigrantes russos que chegaram à região a partir de 1876, para quem os quilombolas foram perdendo parte de suas terras.
Memórias
Em entrevista realizada em 2000, o senhor Benedito Gonçalves Guimarães, à época com 70 anos, contou as lembranças que tinha sobre a história da Comunidade de Sutil e de seus ancestrais. Explica também como aconteceu a divisão das duas comunidades e como os quilombolas foram perdendo suas terras ao longo do tempo, pela falta de acesso e pelo desconhecimento de seus direitos.
Aí que houve essa libertação, que ela era mulher e tinha o outro, de certo marido dela também, não sei como era o nome dele … e também o casal, de certo eram liberado, ou de certo já eram casado, ou sei lá se ela era sozinha, ou como é… casada, sim, se não, não podiam gerar Pedrina, Tiburcio, mais os irmão dela, que era irmão da minha vó, que era filha dessa dona que era escrava, que nós estamos falando. Mas conforme eu peguei na mente, eu já tenho na minha mente. Aqui era Santa Cruz, não Sutil, no mapa que é do terreno do povo antigo aqui, que isso já foi tudo prô brejo, era Santa Cruz. (..) E era uma bisavó minha que era vez disso aí e as outras famílias. (..) Tudo a mesma coisa, essas família aqui de baixo e as de cima era tudo Santa Cruz, não tinha nada de Sutil, não sei como é que fizeram esse batismo aí. (.)Terrenaço. A gente, falta de estudo, os sabido, os mais sabidinho, foi estudando e enrolou os coitado, pois eram analfabeto. Eles falavam: ôi, eu dou um alqueire de terra prô senhor modo de o senhor nos arrumar tal coisa assim. Eles iam e cortavam dois, quatro alqueire nessa terra. Até que foi enrolando todo mundo Daí ajustaram um advogado, o advogado enrolou eles, pior ainda, aí que foi. Nós era rico se nossos pai, nossos avô, fosse um pouco inteligente, pois davam terra em conjunto, Gente, pobre, caboclo, os padre que chegava aí mendigando, ficavam rico. Minha bisavó diz que deu prá um tal de Roseira que existiu, ficaram com todo o terreno de Santa Cruz. (HARTUNG, p. 107)
Referências:
ALVES, Ana Paula Aparecida Ferreira. Discursos hegemônicos sobre o conceito de comunidade contrapostos às espacialidades e territorialidades de comunidade reais: estudo de caso da comunidade rural quilombola de Santa Cruz (Ponta Grossa, Paraná). Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2015.
HARTUNG, Mirian Furtado. A comunidade do Sutil: história e etnografia de um grupo
negro na área rural do Paraná. Tese (Doutorado em Antropologia) – Museu Nacional-UFRJ. Rio de Janeiro, 2000.
Instituto de Terras, Cartografia e Geociências. Terra e cidadania. Curitiba, PR: ITCG, 2008, p. 87.